Uma cena clássica da advocacia é o cliente chegar no escritório para formalizar um contrato e ter de rubricar diversas folhas e assinar a última, e fazer isso em duas vias, ou seja, duplamente. Isso, depois de ler diversas cláusulas, escritas em uma linguagem rebuscada e repletas de formalismos difíceis de compreender.

Essa linguagem rebuscada, ainda utilizada em muitos âmbitos da Justiça no Brasil, é fruto de uma cultura “bacharelista” que remete aos tempos do Império, quando o estudo da Lei era reservado a poucos. Todavia, hoje sabemos que o “juridiquês” acaba afastando muitos cidadãos do Direito, levando-os a acreditar que a Justiça é para poucos.

Vivemos atualmente na Era da Informação e contamos com novas formas de se comunicar. Na internet, mudamos o jeito de consumir informações, privilegiando mensagens passadas de forma direta e de fácil compreensão. Dividimos nossa atenção entre texto, áudio, vídeo e outros meios interativos – muitas vezes consumindo tudo ao mesmo tempo.

A área do Direito também pode se beneficiar disso. Uma das ferramentas que podem ser utilizadas para facilitar o entendimento das informações jurídicas é o visual law. Utilizar elementos gráficos para comunicar melhor a estratégia de defesa para um cliente, por exemplo, não é novidade. Mas a tecnologia proporciona aos operadores do Direito uma gama infinita de possibilidades: vídeos, infográficos, fluxogramas, quadrinhos, gamificação, só para listar algumas opções.

Onde e como pode ser aplicado?

Basicamente, o visual law é uma forma de descomplicar a linguagem jurídica, proporcionando uma compreensão mais rápida e objetiva das informações. Desta forma, ele pode ser aplicar em qualquer âmbito em que ocorra comunicação entre duas partes. Como exemplo, podemos citar: comunicações entre advogados e clientes, contratos, petições, comunicados oficiais, legislação.

Engana-se quem pensa que o visual law é a simples inserção e elementos do design nos documentos jurídicos. Vai além; faz parte do Legal Design, que é a aplicação o Design Thinking no meio jurídico. É uma abordagem que visa a resolução, de forma inovadora e criativa, dos problemas do cliente jurídico. Por clientes, podemos considerar: cidadãos em geral, clientes de advogados, advogados em relação aos Tribunais, servidores do Judiciário e operadores do Direito em geral.

O visual law pressupõe ideação, planejamento, metodologias de trabalho. Envolve conhecimentos multidisciplinares, como Direito, design, tecnologia, comportamento, entre outros.  Assim, por meio de imagens, elementos gráficos e organização de informações, os projetos de visual law facilitam a compreensão do Direito.

Dicas de como utilizar o visual law no dia a dia

Embora projetos mais elaborados necessitem da participação ativa de ilustradores, programadores, redatores etc., é possível aplicar os preceitos do visual law no dia a dia. Confira algumas dicas práticas:

  1. Evite a linguagem rebuscada, seja direto e objetivo: o número de páginas de uma petição não significa que ela tem mais ou menos profundidade. Escreva somente o necessário, seja direto em relação a sua pretensão e evite incluir textos legais desnecessários.
  2. Organize as informações: facilite a leitura dividindo o seu texto em seções, tópicos e subtópicos. Organize as informações em ordens claras de hierarquia, do mais importante para o secundário. Destaque com negrito palavras-chave ou trecho, mas com cuidado – se tudo está destacado, nada está destacado.
  3. Utilize elementos gráficos: nem tudo precisa ser explicado em texto corrido. Aliás, muita coisa pode se confundir. Quando couber, ilustre com imagens, fluxogramas, infográficos,
  4. “Entendeu ou quer que desenhe?”: nem todos os clientes estão familiarizados com as etapas de um processo. Abuse de fluxogramas, gráficos e imagens a fim de explicar mais claramente para ele sobre prazos, procedimentos e possíveis resultados.
  5. Seja criativo: a criatividade e o pensamento inovador são dois dos pilares do Design Thinking. Portanto, busque sair do padrão. Quem gostar de ler páginas e páginas de juridiquês para assinar um contrato? Mas que tal explicar as cláusulas em formato de histórias em quadrinhos? E por que os modelos de petições devem obedecer a um padrão? Inclua ícones, imagens e, quem sabe, um QR Code para acessar informações complementares?